Eu recomendo: Kekkaishi!

A prova de que um shonen não precisa passar por todos os clichês do gênero e ainda ter um conceito bem criativo. 

   Kekkaishi é um mangá de autoria de Yellow Tanabe (um pseudônimo bem diferente) e, recentemente, foi encerrado com 35 volumes lá no Japão. Esse post não terá spoilers, apenas uma visão geral e acontecimentos básicos apresentados logo no volume 1.

Sabe aqueles shonens de porradaria com ação frenética onde o enredo é o de menos? Então, Kekkaishi não é assim. A história gira em torno de Karasumori, uma terra que, por ser sagrada, atrai muitas Ayakashis (algo como “demônios” para a cultura ocidental), visto que elas ficam extremamente fortes sobre esse terreno. Há 500 anos um senhor feudal, com elevadíssimo poder espiritual, contou com a ajuda de Tokimori Hazama, um poderoso mago, para se proteger das Ayakashis. Com a morte do senhor, Hazama o enterrou e passou seus conhecimentos à dois discipulos para que eles protegessem o lugar onde seu “chefe” havia sido enterrado. É essa região que ficou conhecida como Karasumori.

  O personagem principal, Yoshimori Sumimura é o segundo filho de uma família que herdou os ensinamentos de Hazama. Assim, cabe a ele proteger a terra sagrada de Karasumori. Porém, ele não é o único. A família Yukimura também possui tais conhecimentos e Tokine, uma menina dois anos mais velha que o personagem principal, realiza o mesmo trabalho que Yoshimori. Tem-se uma rixa entre as duas famílias e Yoshi sempre teve uma quedinha por Tokine, mas não pense que a história é uma versão alternativa de “Romeu e Julieta”. Esses dados são o de menos e acabam por serem muito bem desenvolvidos ao longo do mangá, mais como plano de fundo.

  O curioso é que sobre a terra de Karasumori foi construída uma escola onde Yoshimori e Tokine estudam de dia e patrulham à noite, horário quando as Ayakashis aparecem para “sugar” a energia do local. No primeiro capítulo vemos o personagem principal ainda criança indo para a sua primeira noite de “trabalho”. Chorão e sem motivações o menino parece ser apenas mais um protagonista descartável, mas não. Nesse mesmo capítulo um acontecimento o faz decidir que ele nunca mais deixará que ninguém se machuque por ele e, assim, segue com seu trabalho noturno. Ao longo da série ele adquire um outro objetivo (que não vou falar para poupar spoilers) que o faz se interessar mais por seus poderes e auxilia no amadurecimento do personagem. Tokine também não é aquelas menininhas irritantes de shonen que falam mais do que fazem. Ela tem atitude e sabe muito bem a hora de agir, dando de dez a zero em outras personagens femininas de mangás mais famosos, a Sakura (de Naruto) e a Inoue (de Bleach), por exemplo.

  A dupla conta com a ajuda de duas Ayakashis em forma de cão “domesticadas”: Madarao, acompanhando Yoshi, e Hakubi, acompanhando Tokine. Elas farejam outras Ayakashis e como recompensa podem comer as menores. Uma das minhas maiores reclamações é justamente os “cachorros” não aparecerem muito, porque a interação deles com seus donos é muito divertida. Madarao sempre dando broncas em Yoshimori e Hakubi com um jeito meio afeminado, terminando suas frases com “honey” e usando termos em inglês de vez em quando.

  O “poder” dos protagonistas é a arte de fazer barreiras. Soa como algo muito defensivo e pouco ofensivo. E é mesmo, por isso os personagens tem que serem muitos habilidosos para usar isso em prol deles. A técnica mais básica é criar uma barreira “quadrada” envolvendo a Ayakashi e eliminá-la lá dentro. A variedade de situações e “golpes” que essa habilidade proporciona é imensa e com o desenvolvimento dos personagens novos usos para a mesma acabam sendo apresentados. O desenho também é lindo. Yellow Tanabe sabe desenhar formas geométricas muito bem e as expressões, cenários e cenas de ação são igualmente belas. A princípio os rostos podem parecer meios quadrados demais, mas não chega a incomodar e isso fica mais ameno com o decorrer da leitura. Aqui gostaria de dizer que o character design do anime é bem diferente do mangá, e acho que a versão animada pecou bastante nesse quesito.

  O elemento humor é bem forte no mangá extremamente bem apresentado. Não é algo inteligentíssimo, mas também não é escrachado, bobo. As feições desenhadas pela autora (sim, Yellow Tanabe é uma mulher) são ótimas e, muitas vezes, mais engraçadas que a situação em si. Para se ter uma noção o sonho de Yoshimori é construir um castelo de chocolates! Ele adora doces ocidentais e, por trabalhar a noite, dorme em praticamente todas as aulas. Soa clichê? Sim, mas repito que é algo muito bem executado.

 Creio que o maios diferencial de Kekkaishi é a forma como seu enredo se desenvolve. Não se tem um objetivo definido logo no primeiro capítulo. Yoshimori não quer ser o rei dos piratas ou se tornar o Hokage. Ele é apenas um garoto comum que, por acaso, nasceu em uma família que herdou algo que ele acha muito chato e tem que conviver com isso. Por isso tem-se algo visto pela maioria, acostumada com uma roteiro linear, como algo lento e arrastado. Não que não seja lento, ele é, mas ao meu ver isso é um ponto positivo porque cria uma característica própria do mangá e dá liberdade para a autora construir muito bem o mundo onde a história é situada. Se o protagonista continuasse o mesmo do início ao fim eu tenho certeza que tudo seria bem chato, mas não. Isso me faz crer que Kekkaishi é muito mais sobre o amadurecimento de Yoshimori do que qualquer outra coisa.

  O primeiro grande arco, da Kokubourou, termina no volume 13. Para mim o ápice está no volume 10 e, se você achar Kekkaishi um porre, eu insisto, leia pelo menos até aí. E não pense, pelo parágrafo anterior, que não temos vilões ou lutas. Kekkaishi é um shonen completo, com intrigas, reviravoltas e um toque político muito instigante. Personagens que no começo, aparentemente, eram parte de uma missão curta voltam a aparecer depois sob uma nova ótica, prontos para surpreender o leitor. Aliados duvidosos, organizações com brigas internas e objetivos obscuros, deuses japoneses muito simpáticos, grupos de inimigos, svilões bem desenvolvidos e personagens principais mais ainda. Creio que por não ser da Jump, o mangá teve muito mais liberdade na sua criação e pode adquirir um caráter mais “maduro” (quem ler o volume 10 entenderá o que eu digo).

  Muitos mistérios são levantados e vão se esclarecendo aos poucos. Como raios os dois protagonistas conseguem conviver pacificamente com Madarao e Hakubi? Se Yoshimori é o segundo filho, por que seu irmão mais velho não assume as responsabilidades da família? Onde estaria ele? E o que houve com os pais de Tokine, que foi criada pela avó? Some isso ao fato de que Karasumori é uma caixinha de perguntas em si e terá muitas outras perguntas para te instigar a continuar lendo.

  Originalmente publicado nas páginas da Shonen Sunday a obra é lançada aqui no Brasil pela Panini, desde Junho de 2010 com o subtítulo “Mestre de Barreiras”, a tradução do termo “kekkaishi”. O volume 15 deve sair ainda esse mês (Abril/2012). Não vi o anime de 52 episódios, mas eu sei que ele não cobre todos os acontecimentos do mangá (tendo terminado antes).

  Vale ressaltar o excelente trabalho da editora com esse título. As capas são lindas, mais bonitas que as originais japonesas, sempre com um detalhe em uma cor diferente de uma edição para outra. Confesso que comprei o título sem pesquisar nada previamente: apenas vi o volume 1 na banca e achei bonito demais para deixar passar. Sorte que não me decepcionei. Os freetalks da autora estão presentes no verso da capa e no verso da “segunda capa” sempre tem uma pequena imagem colorida relacionada aos acontecimentos daquele volume, sejam elas cômicas (a maioria) ou de caráter mais sério. Uma pena é o mangá ter passado para a periodicidade trimestral. Segundo boatos o título não vende muito bem, e a Panini passar a lancá-lo de 3 em 3 meses acaba por comprovar isso. Por sorte a editora já disse que não pretende cancelar mais nenhum título, o que me deixa aliviado. Em anos anteriores Kekkaishi seria um forte candidato a ficar no Limbo. Se você ler pela internet e gostar não deixe de comprar o mangá, com a edição e o trabalho gráfico que ele recebeu garanto que não vai se arrepender.

  Detentor de um dos momentos mais emocionantes/chocantes que já tive o prazer de ler, Kekkaishi é uma obra que cria e desenvolve muito bem sua mitologia, transmitindo um imenso carisma.  Se tiver um tempo livre fica aqui a leitura mais do que recomendada!

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6 pensamentos sobre “Eu recomendo: Kekkaishi!

  1. Caramba, toda vez que vejo esse mangá nas bancas fico meio besta, já que as capas são lindas, e como nunca tive a oportunidade de pegar o volume 1, fico na vontade mesmo! Gostei do texto, me deu mais curiosidade de ler, vou ver se baixo umas scans na net mesmo!

  2. Oi..eu queria saber o seguinte o anime ..ele segue o manga todinho até o seu ultimo episodio(eu sei que acabo antes)…

    Ou as historia se convergem como Por exemplo Soul Eater e Fullmetal Alchemist..

    Espero a resposta =D

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