[C]: The Money of Soul and Possibility Control, um anime broxante ou mal compreendido?

Até que ponto o dinheiro interfere no que você vive e no que ainda está para viver?

  [C]: The Money of Soul and Possibility Control, ou apenas [C], é um anime que foi ao ar de abril a junho de 2011, exibido no bloco noitaminA (onde foram exibidos Honey & Clover, Higashi no Eden, entre outros), da TV Fuji. A maioria (e bota maioria nisso) das pessoas que assistiram se sentiram decepcionadas com a obra, de modo que quando se trata sobre opiniões acerca da mesma é quase um senso-comum ler/ouvir algo como “O tema era bom, mas foi mal desenvolvido”. Não que ela seja a oitava maravilha da animação japonesa, mas creio que muita coisa boa que poderia ser analisada acabou passando despercebida. Então, nada melhor do que uma review supimpa (back to 80’s) para tentar esclarecer esses pontos. Preparem as carteiras porque a negociação está prestes a ser iniciada. Mas ler ainda é de graça, relaxem.

  Em um mundo comum, como o em que vivemos, o jovem estudante de economia Yoga Kimimaro vive uma vida sem muitos luxos devido sua situação financeira, que não é lá das melhores. Devido a essa situação garoto tem de passar por algumas privações, tal qual não ter dinheiro para almoçar na faculdade e muito menos para comprar artigos afim de seduzir a menina de quem gosta, Hanabi.

  Então Yoga recebe uma visita inesperada. E olha que não é o Shun /piadinha. A estranha figura de Masasaki (que claramente não é humano) entra em seu apartamento e lhe faz uma proposta: a de fazer parte do distrito financeiro. Esse funciona como uma cidade situada em uma espécie de “outra dimensão” onde tudo é regido pelo dinheiro. O lugar inclusive possui sua própria moeda, o dinheiro de Midas, que quando conquistado pode ser usado no mundo real.

  Ao entrar para o Distrito Financeiro Japonês (já que existem outros espalhados pelo mundo de acordo com os principais blocos econômicos), Yoga se tornaria um “empre”. As condições para isso são duas: realizar ao menos uma “negociação” (leia-se lutinha) por semana e dar como garantia o próprio futuro. O garoto acaba aceitando e assim conhece sua nova parceira e personificação de seu próprio futuro: Msyu. Ele também descobrirá que ao perder todo o dinheiro em uma negociação, ou seja, “falir”, ele terá de abrir mão de seu futuro, o que poderá se refletir de diversas formas diferentes no mundo real.

  “O poder do dinheiro vêm da confiança. Faça as pessoas perderem a confiança no dinheiro e ele passará a ser apenas papel, apenas pó.”

  Dado o enredo básico, vamos às considerações. [C] é muito mais episódico do que aparente ser, sendo que sua primeira metade é praticamente composta de histórias isoladas para apresentar alguns personagens ou reforçar as bases ideológicas dos mesmos. Não é ruim, mas há um grande problema de ritmo nessa parte que torna tudo muito maçante. Claro que os elementos apresentados não são jogados ao vento e são, em sua quase maioria, retomados ao final.

  A arte do anime é um de seus pontos mais criativos e destacantes. Todo o visual do Distrito Financeiro, o predomínio de tons vermelhos e aparência dos ativos (nome dado às personificações dos futures de cada empre) adicionam um charme especial à obra, que é toda cheia de seus mimos. Por exemplo, ao se iniciar uma negociação, a contagem de tempo começa em 666. Isso não conota nada demoníaco como o número sugere, mas é um detalhe que salta aos olhos.

  Outra coisa aparentemente irrelevante que eu gostei muito foi a fuga dos esteriótipos comuns a personagens de “desenho japonês”. Calma, não atirem pedras, eu explico. Em animes é comum vários elementos da cultura japonesa serem mostrados em abundância, seja a escola, o humor gritado característico, as “gírias” (baka, sugoi, etc), o personagem principal sentando do lado da janela, etc. Isso é meio óbvio já que animes são feitos para o público japonês, mas não deixa de ser enjoativo ver as mesmas características em toda animação. Nesse ponto [C] se destaca por dar espaço a outras culturas, principalmente a americana, sendo que personagens estadunidenses aparecem falando inglês e, apesar de menos recorrente, personagens de outras nacionalidades aparecerem falando suas línguas nativas.  Não que a obra não tenha seus “clichês” relacionados à composição do mundo e dos personagens. O cabelo rosa de Masasaki e o extremo esforço em fazer Mikuni parecer descolado em todos os momentos são características que quem tem o hábito de ver animes provavelmente já viu antes.

  Já que toquei no assunto de “outras culturas”, preciso dar mais um destaque, dessa vez para a abertura. Ela é, sem dúvidas, uma das minhas preferidas, mostrando flashes do Distrito em meio aos “cartões” específicos do mesmo, fórmulas matemáticas e notas de diversos países. Dentre elas, as notas do iene, dólar e euro ganham mais destaque, sendo que é dado um zoom no interior de cada uma delas, mostrando um pouco da história de seus respectivos países. Com o dólar, por exemplo, vemos um avião lançando mísseis (possível referência ao poderio militar dos EUA ou aos ataques nucleares a Hiroshima e Nagasaki), militares em uma zona de floresta (o que me lembrou o filme Platoon, já que parecem se tratar de soldados americanos no que seria a fracassada campanha na Guerra do Vietnam) e por fim a típica silhueta do presidente norte-americano em seu palanque para discursos. São coisas pequenas, que passam rápido, mas são justamente eles que me compram quando estou vendo algo.

  Claro que nem tudo são flores. As lutas, por exemplos, que para alguns seria o ponto principal, são na verdade muito mais acessórias e alegóricas para a história do que um destaque específico, como as vistas nos battle shonen. Com exceção de duas “negociações” (a última, que possui uma direção e mudança de ângulos excelente, e uma outra ocorrida no meio do anime e como uma tentativa de estabelecer uma forte carga dramática), todas as outras são ou para aprofundar alguma característica psicológica dos personagens, ou exemplificar algum movimento do Distrito e sua interferência no mundo real.

  E são justamente essas interferências que geram todos os conflitos e fazem com que a trama se desenrole. O modo como uma “falência” afeta cada um é diferente para cara empre, assim os resultados de negociações mal sucedidas são extremamente fortes e rendem algumas das melhores cenas. Justamente por isso eu defendo que [C] deve ser visto mais como um drama do que como um anime de aventura, para evitar decepções de quem espera muita porradaria, e também porque combina mais com o tom calma presente em quase todos os momentos.

  A animação é boa, nada excepcional, porém os caprichos na direção de arte compensam as falhas na direção… Bom, na verdade compensam quase todas, porque uma delas destoa completamente do resto: a Computação Gráfico. Sério, não entendo essa mania de botar C.G. onde não precisa! Já acho feio elementos inanimados, como nos carros, imagina nos personagens. Sorte que a ocorrência delas diminui bastante com o passar dos episódios, mas é desconcertante ver os personagens sem expressão naquele visual pitoresco e completamente datado, que acaba “envelhecendo” a obra como animação em geral. [C] de Computação Gráfica.

  Eu entendo quem diz que [C] tinha potencial para ter sido muito mais. Os ativos, por exemplo, eram muito criativos e podiam ter embalado no sucesso de outros “monstrinhos”, como Pokémon ou Digimon. Só que, como eles fazem parte apenas nas cenas de luta (Msyu é exceção), e essas não são o foco da bagaça, os bichinhos acabaram ficando meio de lado. Creio que, se o número de episódios fosse maior, esse aspecto poderia ser mais bem desenvolvido, assim como outros que acabaram soando muito superficiais, como o contraste Ocidente – Oriente.

  Gostei bastante da trilha sonora, sendo que algumas composições com coro de vozes ao fundo lembrar bastante os cantos gregorianos, e a música que toca ao fundo de momentos pré-clímax transmite bem a tensão inerente aos momentos em que algo importante está prestes a acontecer. Os personagens são bons e alguns foram até mais bem desenvolvidos do que eu poderia imaginar ao começar a assistir, principalmente Mikuni e Yoga. Medalha de consolação para Sato, Msyu e aquele fotógrafo/traficante de informações que esqueci o nome.

De que adianta salvar alguém sem futuro?

  Já falei bastante, mas ainda não cheguei ao ponto que, para mim, é a onde o anime brilha e também o lado mais injustiçado da obra: sua filosofia. Por ser muito subjetiva e requerer algumas informações importantes acerca dos personagens e dos momentos finais, fiquem avisados que a partir daqui o texto terá SPOILERS. Então, caso não tenha visto [C], pule para “Fim dos Spoilers” e vai assistir logo essa bagaça.

  O ponto central de [C] é o embate entre presente e futuro. Isso fica bem claro, já que Mikuni defende arduamente a ideia de que se deve viver o “hoje” e Yoga segue o ideal de que de nada vale a pena fazer grandes sacrifícios se as pessoas não puderem ter um futuro decente. Nesse ponto que as ativas (ui) de cada um dos antagonistas se mostram importantes, já que Msyu é a encarnação da filha de Yoga e Q é uma representação da irmãzinha de Mikuni.

  Ao final, que é bem clichê por sinal, Yoga vence, com direito a um soco bem dado em uma cena em preto e branco apenas com os contornos dos personagens, parecendo o rascunho de um mangá (mais um daqueles “mimos” citados anteriormente). Mesmo que o fato de Yoga ter salvado o dia parecer ser tirado do toba e sem fundamento, deu pra sacar que a real intenção era mostrar que o processo gerado por ele era uma reversão do que havia sido desencadeado por aquele que possuía uma ideologia oposta, mesmo ambos fazendo uso da mesma ferramenta (aquele cartão negro, “as trevas”).

  E aqui entramos no ponto do dinheiro, que á coisa mais metafórica da obra. Nos Distritos o dinheiro é emitido sacrificando o futuro das pessoas. Isso não soa familiar para vocês? No sistema capitalista no qual vivemos, quantas pessoas não se descontrolam na busca obsessiva pelo dinheiro e acabam esquecendo de viver a própria vida? O que importa mais para nós: acumular capital para gozar de uma vida próspera na velhice ou se preocupar com o agora mesmo que isso signifique viver sem muitos luxos? Novamente o antagonismo Presente x Futuro, só que agora podendo ser aplicado no nosso cotidiano e não apenas na esfera fictícia do anime.

  Sobre Masasaki: que personagem interessante! Cada Distrito possuía seu “Masasaki”, tendo todos eles cores de cabelos diferentes, rs. Suas ações são misteriosas e muitas vezes parecem serem irracionais, como quando ele entrega o cartão negro ao Yoga para forcar uma luta entre o garoto e Mikuni. Ao ser questionado sobre seus atos ele sempre responde “Estou apenas sob ordens vindas lá de cima.” E de quem seriam essas ordens? Deus? Essa pode ser uma interpretação, mas vejo muito embasamento religioso para defende-la. Assim, formulei duas hipóteses sobre esse “superior”.

  A primeira é a de que Masasaki é a representação do espírito capitalista, e sua existência serve ao único propósito de ver a roda da economia girar. Assim, seu superior seria o próprio capitalismo, sistema cujas “ordens” já foram difundidas há muito ao longo do cenário mundial. Só que eu pensei nisso antes de ver o último episódio, quando o tal superior de fato aparece em meio aos vários Masasakis. A partir daí pensei em outra coisa que, pode soar “viajada” para alguns, rs.

  Para mim o “superior” é uma entidade que, através de todo o circo dos Distritos Comerciais, estabelece uma provação aos empres para que eles decidam o que fazer tendo aquele mundo ao seu alcance. As possibilidades são muitas, sendo algumas representadas por alguns personagens ao longo do anime. De todos eles, Yoga foi o único que não viu o dinheiro como “meio” para salvar o presente ou o futuro, preocupando-se apenas em preservar um mundo onde todos pudessem ter o direito de viver o amanhã. Assim, superando a obsessão natural do homem moderno pelo dinheiro, ele teria alcançado algo como o estado de Nirvana, que seria aquele quarto onde ele conversa como superior em questão, e assim sendo levado a um outro “nível”, que seria o “futuro paralelo” mostrado depois do créditos no último episódio.

Não importa o tipo de mal, não importa o tipo de desastre, tudo existe para guiar a humanidade para um futuro melhor. -“Superior”

  Ainda nesse segunda hipótese, constatamos a presença de Masasaki novamente. Então ele não foi “derrotado”? Não, e nunca será, já que, ao meu singelo e esquisito ver, ele é nada mais do que a personificação dos desejos humanos. “Enquanto existir um futuro, eu estarei lá”, diz ele mesmo. Enquanto existir qualquer ambição, qualquer desejo residindo em alguma alma humana, Masasaki estará lá, disposto a abrir as portas do Distrito Financeiro e com um sorriso irônico de quem está doido para saber se o indivíduo será capaz de resistir às tentações materiais para realizar seu desejo, materializado na forma de um “futuro”, como seu ativo. E essa é outra coisa que apenas Yoga fez, querer salvar Msyu, sua futura filha.

  Falando na Msyu… Achei desnecessário aquele beijo no final embalado pela única música que não gostei (sério, achei ela brega demais). É meio doentio saber que ela é a  futura filha do Kimimaro e ver os dois se pegando. Eu tinha achado ótimo quando ele respondeu o pedido de beijo dela com um selinho na testa, afinal, é o tipo de coisa que eu vejo um pai fazendo com uma filha, e por mim o “romance” teria terminado ali. Confesso que gastei meus neurônios pensando em tudo que já escrevi acima, então prefiro ficar sem entender esse beijo, afinal, não podemos nos esquecer de que é uma obra criada por japoneses, e ta aí um povo que tem uns fetiches esquisitos.

  Só um comentário aleatório, mas que não posso deixar de fazer,rs. Como adorei a Sato! Ela foi muito esperta quando, antes de falir, confiou seu ativo, seu futuro, A Yoga. Olhem que forma sutil de dizer que alguém á beira da morte confiou o resto de sua vida naquele que é sua última esperança. É uma situação clichê que ficou tão subjetiva a ponto de conseguir me comover (um feito difícil, acreditem). Gostei bastante do Kimimaro como protagonista (não foi irritante, rs) e também do Mikuni. O esforço para fazer esse último parecer cool deu certo, tanto que a maioria das imagens desse post são dele. Ah, e o visual em alguns momentos me lembrou MUITO Madoka, principalmente quando a Q dá as suas surtadas, toda trabalhada no canibalismo.

Fim dos Spoilers

  Não crie expectativas sobre [C]: The Money of Soul and Possibility Control e o veja preparado para uma obra onde os diálogos são mais importantes do que as cenas de pancadaria desenfreada. Some isso a um visual que concilia o agradável como incomum para então poder usufruir do melhor que o Distrito Financeiro pode lhe oferecer. Só por curiosidade, o título de todos os episódios é sempre uma palavra em inglês iniciada pela letra “C”. Se alguém quiser ler outras opiniões mais “pé no chão” e menos fanboy, recomendo os posts do Mangathering e do Chuva de Nanquim (só clicar no nome do blog desejado, rs).

  Para encerrar, fiquem com a já comentada abertura e um wallpaper bonitão do anime que eu achei por aí:

E você, está pronto para apostar todas as suas fichas no futuro?

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2 pensamentos sobre “[C]: The Money of Soul and Possibility Control, um anime broxante ou mal compreendido?

  1. Realmente, concordo com o post não esperem muita luta, mas o enredo e bom, e foi importante destacar que ele não via o dinheiro como os outros, tanto que não gastou pelo seu proprio bem, ou diversão. Parabéns!

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